- Você parece uma criança. - ela disse sem olhar no rosto da menina.
- Por que diz isso ?
- Olhe só para você. É quase uma versão feminina do Peter Pan, você não cresce.
- Eu acho que já cresci o suficiente, obrigada.
- Novamente com a sua infantilidade. Você não cresce por dentro, continua agindo como uma criança mimada e infantil.
- Verdade ? - A menina parou por um instante. Parecia estar muito concentrada amaçando guardanapo, mas sua mente vagava bem longe dali - E você diz isso por qual motivo ?
- Acredito que fui bem clara. A maioria dos jovens está lá fora, nas ruas, vivendo a vida. Saindo à noite e voltando para casa quando o sol raiar, e aos poucos, tornando-se independentes e adultos. No entanto, você ? Perdida nesse mundo de sonhos, rindo e divertindo-se com histórias infantis. A sua infância já chegou ao fim há tempos, lembre-se disso.
- Eu agradeço a preocupação e os seus conselhos, mas não concordo com o que disse. Eles estão vivendo a vida, não é ? Então, eu também estou vivendo a minha vida.
A mulher observou-a com por um momento, era difícil ser observada com tanto descontentamento. Ao perceber que a discussão era inútil, fez um gesto com a mão que mal parecia um adeus e seguiu seu caminho para fora da sala de estar.
A menina,por sua vez, ficou sozinha no cômodo com um sorriso bobo estampado no rosto. A vida era tão ampla e com tantas infinitas possibilidades, para ela, prender-se a um único caminho era quase como a morte. Ela era infantil e definitivamente uma sonhadora incurável, mas os sonhos a faziam humana e anjo. Humana para saber cair e anjo para saber voar. Dessa maneira, ela poderia cair, fracassar e reerguer-se com a vontade de continuar seu caminho. Não era otimismo exacerbado, era apenas um meio de sobrevivência nesse mundo hostil. Mesmo assim, aquela menina sabia que um dia iria voar tão alto que aqueles jovens e aquela mulher teriam que olhar para o céu.
As lágrimas corriam pela sua face enquanto ela pulava do sofá para a janela aberta. O céu estava laranja com uma fina camada azulada e algumas estrelas ousavam aparecer por trás das nuvens. Ela fechou os olhos e as mãos, fazendo uma pequena oração. A mulher voltou para a sala à procura de alguns papéis e viu a menina. Ela poderia tentar, mas não seria capaz de ouvir a oração, que apenas o céu sabia. E mesmo que as palavras da menina não fossem capaz de alcançar os ouvidos da mulher, alcançaram algo mais importante, por que agora duas pessoas choravam na sala de estar.
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